sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Morte súbita

"(...)Na sua opinião, o maior erro de noventa e nove por cento das pessoas é ter vergonha de serem quem são, é mentir a esse respeito, fingindo ser alguém diferente. A honestidade era a sua marca, sua arma, a sua defesa. Quando somos honestos, as pessoas se assustam, ficam chocadas. Bola descobriu que tem gente que fica aferrada a constrangimentos e falsas aparências, morrendo de medo que as suas verdades possam se espalhar. Ele, porém, gostava mesmo era das coisas nuas e cruas, de tudo que fosse feio, mas honesto, das coisas sujas que faziam pessoas como o seu pai se sentirem humilhadas e enojadas. Pensava muito sobre messias e párias, sobre homens que eram taxados de loucos ou criminosos, nobres marginais rejeitados pelas massas inertes.
O mais difícil, a verdadeira glória era ser quem a gente realmente é, mesmo quando se trata de uma pessoa cruel ou perigosa, aliás, especialmente nesses casos. É preciso ter coragem para não tentar disfarçar o animal que lhe calhou ser. Por outro lado, é preciso evitar fingir ser mais que o animal que você é: se entrar por esse caminho, se começar a exagerar ou aparentar outra coisa vai acabar se tornando um outro Pombinho, tão mentiroso, tão hipócrita quanto ele. "Autêntico" e "inautêntico" eram palavras que Bola usava com frequência, mentalmente. Na sua opinião, esses dois termos tinham uma incrível precisão de significado, e ele os aplicava referindo-se tanto a si mesmo quanto aos outros.
Tinha chegado à conclusão de que possuía características autênticas que deviam, portanto, ser estimuladas e cultivadas. Alguns dos seus hábitos mentais, porém, eram produtos desnaturados da infeliz criação que teve e, assim, já que eram inautênticos, deviam ser eliminados. Ultimamente, vinha experimentando agir de acordo com o que considerava os seus impulsos autênticos e ignorar, ou reprimir, a culpa e o medo (inautênticos) que tais atos pareciam acarretar. É claro que tudo ia ficando mais fácil com a prática... Bola queria se endurecer por dentro, tornar-se invulnerável, livrar-se do medo das consequências: libertar-se das noções espúrias de bondade e maldade. (...)"

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

No vento livre do seu arbítrio

Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou tá vivendo de gorjeta?
Sim, porque depois dos 50 é gorjeta.
Neste mundo poluído, conturbado,
Passar dos 50 é fazer 13 pontos...
Quantos anos você tem?
Você tem idade prá saber o que é certo
Ou você só tem idade prá viver o que é errado?
Quantos anos você tem?
Você tem idade prá tomar vergonha
Ou a vergonha se consumiu na sociedade de consumo?
Quantos anos você tem?
Você tem idade pra enfrentar, assumir e realizar
Ou você só tem idade prá entrar na onda?
Você é um rato ou um homem?
Você prefere o queijo ou amor?
Você está na ratoeira da massificação
Ou está no vento livre do seu arbítrio?
Quantos anos você tem?
Você sabe que não existe presente?
Que o "que" desta linha já é passado
E o futuro é o "que" que eu não escrevi?
Quantos anos você tem?
Você sabe que o presente não é deste mundo,
O presente é a eternidade vivida.
Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou está vivendo de gorjeta?
O que é que você já fez?
Atravessou cego na rua?
Deu esmola?
Pô, isso qualquer escoteiro faz!
Quantos anos você tem de GENTE?
Você já despertou como GENTE?
Você já andou como GENTE?
Ou até agora foi um instrumento da repetição?
Você sabe o seu papel no mundo
Ou é um espermatozoide crescido,
Na eterna espera de um óvulo?
Quem é você?
Quantos anos você tem?
(...)

Deus negro - Neimar de Barros

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A História Sem Fim:

(....)
Atreiú puxou-o desesperadamente pelas rédeas, mas o cavalinho afundava-se cada vez mais. Não podia fazer nada para impedi-lo. Finalmente, quando o animal tinha só a cabeça fora da água negra, abraçou-o pelo pescoço.
― Eu seguro você, Artax. -murmurou ele- Não vou deixar você afundar.
                        ― Você não pode fazer mais nada por mim, senhor. Está tudo acabado. Nenhum de nós sabia o que nos esperava aqui. É a tristeza que me torna tão pesado e que me faz afundar. Não é possível evitá-lo.
(...)